A verdadeira história de Frank: o que houve entre ele e o PCC?
Frank relata como afirma ter ingressado e deixado o PCC, responde aos questionamentos sobre seu passado e revela os bastidores de uma vida marcada por ameaças, tribunal do crime e fuga. Frank voltou ao centro do debate após o lançamento de seu livro, no qual narra a trajetória que afirma ter vivido dentro do PCC. Em entrevista ao Bacci Noticias, ele responde aos questionamentos sobre seu passado, relembra o tribunal do crime que o levou a abandonar a facção, fala das ameaças que diz sofrer até hoje e explica como tenta reconstruir a vida longe do crime organizado. Poucas histórias despertam tanta curiosidade quanto a de alguém que afirma ter integrado o Primeiro Comando da Capital (PCC), conseguido deixar a facção e, anos depois, transformado essa trajetória em um livro. O lançamento da obra de Frank Willians coincide com um momento em que seu passado voltou a ser questionado publicamente, reacendendo um debate que ultrapassa sua história pessoal e coloca em lados opostos um ex-integrante da organização criminosa e um dos principais nomes do combate ao crime organizado no país.
FAMOSOS
Val Bernardo - W1 Goiás
7/21/20268 min read


Conhecido nas redes sociais pelos vídeos em que comenta a atuação das facções, divulga denúncias e analisa episódios ligados ao crime organizado, Frank passou a ganhar projeção nacional ao afirmar que viveu dentro do PCC entre 2016 e 2023. Agora, ao lançar um livro sobre esse período, vê a própria trajetória voltar ao centro das discussões após declarações do promotor Lincoln Gakiya, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo.
Em entrevista a um podcast, Gakiya afirmou que, caso Frank realmente tenha pertencido ao PCC, teria sido um integrante de "quinta categoria", sem posição relevante dentro da estrutura da facção. A declaração repercutiu entre seguidores e levou o ex-integrante a responder diretamente às críticas pela primeira vez desde que o assunto ganhou força.
'Nunca disse que era da alta cúpula'
Ao contrário do que muitos imaginaram, Frank afirma não ter se sentido ofendido com a avaliação do promotor. Pelo contrário. Diz que nunca construiu sua imagem pública dizendo ter ocupado posição de comando dentro da organização criminosa.
"Eu sempre falei que eu fui integrante de quebrada. Então, ser um integrante de quebrada é ser um integrante de quinta categoria."
Segundo ele, a origem da divergência estaria em informações que chegaram ao conhecimento de Gakiya.
"Levaram para ele que eu me apresentava como alto escalão do PCC, e eu nunca falei isso."
Frank afirma compreender que o promotor não conheça sua trajetória pessoal nem sua atuação nas redes sociais.
"Ele não tem por que conhecer todos os criminosos do Brasil. Ele não conhece eu, ele não conhece a mim nem o meu trabalho. Ele tem informações que levaram a ele."
Embora aceite a classificação sobre 0 posto que ocupava na facção, ele faz críticas ao resultado do trabalho desenvolvido pelo Gaeco no enfrentamento ao crime organizado.
"Eu respeito a coragem que ele tem de, pelo menos, falar da facção. Mas é um fracasso. O cara está há 20 anos na frente do Gaeco, em combate ao crime organizado, e, nesses 20 anos, a facção quadriplicou de tamanho."
Ainda assim, evita desqualificar completamente o promotor. "Mas eu reconheço o trabalho dele à frente do
Gaeco."
As declarações ocupam um espaço importante no livro recém-lançado, mas
Frank deixa claro que o objetivo da obra não é responder às críticas nem travar um embate com autoridades. Segundo ele, a motivação para escrever começou muito antes das redes sociais, dos podcasts e da exposição pública. Começou no dia em que recebeu uma ligação inesperada.
•A chamada que mudou tudo:
Na época, Frank ainda integrava o PCC quando foi procurado por integrantes da própria facção. Do outro lado da linha, a pergunta era direta: um homem que estava sendo julgado em um tribunal do crime havia dito que era seu primo.
"Os caras me ligaram e falaram:
'Irmão, você é parente de fulano?'.
Eu falei: 'Sou'. Eles disseram: 'O seu parente está aqui nas ideias com nós, aqui no tribunal do crime, em cima de uma tentativa de estupro'."
Como não podia comparecer ao local, recebeu outra opção. Acompanhar toda a condução por videochamada.
Segundo Frank, o primo havia passado o dia consumindo crack ao lado de uma mulher usuária da droga. Em determinado momento, ela adormeceu dentro de uma casa abandonada. Foi quando, segundo o relato apresentado no tribunal, ele tentou manter relação sexual com ela enquanto dormia. A mulher acordou, conseguiu fugir e o acusou de tentativa de estupro.
Durante o julgamento, o próprio primo admitiu o que havia acontecido. Dentro da facção, diz Frank, a confissão teve uma consequência imediata: ele foi classificado como "jack", expressão usada no universo do crime para identificar autores de crimes sexuais, uma condição que costuma ser punida com a morte pelos próprios integrantes da organização. O relato não termina com a decisão do tribunal.
Segundo Frank, depois da confissão do primo, os responsáveis pelo julgamento o retiraram do cômodo onde ele prestava esclarecimentos e voltaram a falar diretamente com ele, que acompanhava tudo pela videochamada. Foi nesse momento que ouviu a sentença.
"É o seguinte, você viu aí, seu primo confessou. O resumo já mandou o papo.
Nós vamos matar seu primo."
Logo em seguida, veio uma pergunta que, segundo ele, jamais conseguiu esquecer. Os integrantes da facção perguntaram se ele gostaria de comparecer pessoalmente para acompanhar a execução — ou até mesmo participar dela.
"O irmão vai querer vir pessoalmente pra presenciar? O irmão mesmo quer matar, porque é seu primo?"
Frank recusou. Disse que não iria ao local e que também não participaria da morte do famillar.
A partir dali, os integrantes avisaram que, quando a execução começasse, ele seria retirado da videochamada.
As últimas palavras
Antes de a ligação ser encerrada, o primo voltou a aparecer diante da câmera. Foi a última vez que os dois se viram.
"Ele olhou pra mim na chamada de video e falou: 'Obrigado, primo'. Foi a última palavra dele pra mim."
Frank afirma que, naquele instante, ainda existia uma possibilidade de tentar impedir o desfecho.
Segundo ele, sabia onde o primo estava e poderia alertá-lo para fugir. Não fez isso. A lembrança continua sendo o trecho mais dificil de narrar durante a entrevista.
"Eu poderia ter falado: 'Corre, mano.
Sai daí. Eles vão te matar'. Eu poderia ter falado. Meu primo ia correr porque ia me ouvir. Eu conseguiria salvar a vida do meu primo. E eu não fiz."
Pouco depois, recebeu a notícia da execução. Segundo seu relato, o primo foi morto com golpes de picareta na cabeça.
Frank diz que aquele episódio não provocou uma mudança imediata de vida. Não deixou a facção naquele dia. Mas afirma que foi a primeira vez que passou a enxergar o ambiente em que vivia de outra forma.
"Depois disso daí, eu comecei a ver a facção de outra forma. Comecei a ver as coisas de outra forma. Comecei a me ver de outra forma."
A decisão nasceu dentro de casa
O rompimento definitivo, segundo ele, aconteceu algum tempo depois, longe de armas, reuniões e tribunais do crime. A cena descrita por Frank é doméstica. Ele brincava com os filhos no tapete da sala quando interrompeu a brincadeira para pensar na própria vida.
Naquele momento, afirma, já possuía casa, carros e patrimônio. Não dependia mais financeiramente da facção para sobreviver. A pergunta passou a incomoda-lo.
"Eu falei: 'Mano, por que eu tô no bagulho de facção? Eu tenho tudo'." A resposta veio logo em seguida. "Eu vou sair fora. Vou trabalhar de Uber, mano. Porque meu pai era motorista de ônibus."
Segundo Frank, foi essa decisão que o levou a procurar autorização para deixar a organização criminosa. Na visão dele, existe uma ideia equivocada de que basta abandonar o crime para romper definitivamente com uma facção. Dentro do PCC, afirma, o processo funciona de maneira diferente.
"Entrar é fácil. Sair é muito difícil"
Frank afirma que a saida depende da autorização da própria organização e que não existe uma regra única para isso.
Segundo ele, um dos motivos mais aceitos é a conversão religiosa.
"O motivo, na maior das vezes, é ir pra igreja. Mas é ir mesmo. Se o comando descobrir que você não está indo, está fumando, bebendo ou indo pra festa, você é morto."
Também podem ser analisados casos envolvendo doenças graves ou incapacidades permanentes. Mesmo assim, diz que poucos conseguem deixar a facção em definitivo.
"Pra sair e ficar tranquilo, só depois de muito tempo, e se tiver feito muito em prol da facção."No caso dele, o desfecho foi outro.
Frank afirma que, depois do rompimento, passou a ser "decretado" pelo PCC - expressão usada no universo do crime para indicar que um integrante teve a morte autorizada pela organização. Segundo ele, recusou ainda um convite para ingressar no Comando Vermelho.
"Quando eu saí, fui decretado pelo PCC. Recebi até convites para o Comando Vermelho, mas não quis.
Hoje, sou decretado por todas as facções criminosas do Brasil."
É justamente essa vida depois da saída, marcada, segundo ele, por mudanças constantes de endereço, ameaças e cuidados permanentes com a segurança, que ocupa a parte final do livro.
Uma vida em movimento
Desde que afirma ter deixado o PCC, Frank diz que viver sem rotina deixou de ser uma escolha para se transformar em uma medida de sobrevivência.
Mudanças frequentes de endereço, deslocamentos planejados e cuidados permanentes fazem parte da rotina que descreve no livro. Segundo ele, as ameaças são constantes e atingem também quem está ao seu redor.
Ao falar sobre esse período, a preocupação deixa de ser apenas com a própria segurança. O assunto passa a ser a familia.
Em especial, o filho, diagnosticado com transtorno do espectro autista.
"Eu sofro muito. Muito mesmo.
Ameaças todos os dias, todos os dias é uma luta diferente. Saber que meu filho é uma criança inocente e que a única coisa que essa criança tem sou eu. Eu tenho que me manter vivo."
Ao mesmo tempo, afirma que não consegue abandonar o trabalho que desenvolve na internet, justamente porque ele passou a ser a principal fonte de renda da familia.
"Ao mesmo tempo, eu tenho esse trabalho na internet porque é ele que me dá o sustento. Então eu estou todos os dias entre a cruz e a espada."
As denúncias e o método
Foi nas redes sociais que Frank encontrou espaço para continuar falando sobre o universo que diz conhecer por dentro.
Hoje, seus vídeos abordam operações policiais, disputas entre facções e denúncias envolvendo integrantes do crime organizado.
Segundo ele, as informações chegam por diferentes caminhos. Algumas são enviadas por policiais que atuam em investigações.
Outras, pelos próprios criminosos.
"O crime é um ambiente sujo. Tem muita troca de cabeça. Muito criminoso me manda denúncia para derrubar outro."
Frank afirma, porém, que não publica imediatamente aquilo que recebe. Segundo ele, quando uma denúncia parte de integrantes do próprio crime, primeiro procura policiais para verificar se as informações fazem sentido.
"A polícia analisa se aquele cara é faccionado mesmo, se a informação procede, se bate. Aí eu solto a denúncia."
Ele reconhece que sua forma de atuar é diferente da adotada pelos veiculos de imprensa. "Eu entendo o trabalho jornalistico. Porém, eu não estou nem aí para isso. Meu objetivo é trazer a informação da forma mais crua possível, sem o politicamente correto. Expresso a minha opinião e solto a denúncia."
Na avaliação de Frank, existe desinformação sobre a atuação das facções criminosas, inclusive produzida deliberadamente por integrantes da organização. "Muitas vezes, a alta cúpula até paga para a desinformação."
A afirmação reflete exclusivamente a versão apresentada pelo entrevistado durante a conversa e não foi acompanhada da apresentação de provas.
"Não confio na proteção do Estado"
Apesar de afirmar viver sob ameaça permanente, Frank diz nunca ter cogitado ingressar em um programa oficial de proteção a testemunhas. A justificativa é a falta de confiança no sistema.
"Eu não confio no sistema. Não confio que exista uma proteção real a testemunhas."
Segundo ele, o receio está relacionado à possibilidade de vazamento de informações durante investigações.
Frank cita conversas que afirma ter mantido com policiais e diz acreditar que esse risco inviabiliza qualquer programa oficial de proteção. Também menciona o caso de um ex-integrante do PCC que, segundo seu relato, desapareceu após procurar ajuda das autoridades.
Por isso, afirma preferir investir na própria estratégia de segurança. Ao olhar para o futuro, evita fazer planos muito distantes. Diz apenas que pretende continuar produzindo conteúdo e ampliando o alcance das denúncias. Segundo ele, falta estrutura para desenvolver um trabalho maior de levantamento de informações sobre o crime organizado.
"Eu ainda não sou uma ameaça para a facção criminosa, mas eu poderia ser. Se eu tivesse investimento, recursos corretos, conseguiria mapear muita coisa. Tenho apoio de bons policiais. Com recurso, conseguiria ser uma ameaça gigantesca para as facções."
•O livro como ponto de partida:
Embora a repercussão recente tenha sido impulsionada pelas declarações de Lincoln
Gakiya, Frank afirma que o livro nasceu com outro propósito.
Mais do que revisitar sua passagem pelo
PCC, diz que pretende mostrar as consequências de quem decide romper com esse universo e reconstruir a vida longe da organização criminosa.
"Entrar no crime é fácil. Sair é muito difícil."
