Como a nova direita que governa a América Latina se alinha a Trump diante dos olhos do mundo!

Donald Trump transformou o Escudo das Américas em um fórum fundamental para sua influência regional. Talvez em outro momento da história, um presidente dos Estados Unidos que falasse diante das Nações Unidas sobre usar seu "poderio militar incomparável" para defender seus interesses na América Latina, ou sobre conquistar um "espólio" em um de seus países, teria provocado rejeição de governos de esquerda e de direita da região. Mas o presidente americano que diz essas coisas hoje é Donald Trump, e, em toda a América Latina, vários representantes de uma nova direita estão no poder e, longe de criticá-lo, se alinham a ele diante dos olhos do mundo.

POLÍTICAINTERNACIONAL

Val Bernardo - W1 Goiás

9/26/20263 min read

Essa realidade política ficou evidente nesta semana em Nova York, durante a Assembleia Geral da ONU, onde Trump apresentou o poderio militar ativo dos EUA no hemisfério como uma conquista de seu governo, enquanto enfrenta desafios crescentes em outras partes do mundo.

Em seu discurso na ONU na terça-feira (22/9), ele citou a ação militar que ordenou na Venezuela para prender o então presidente Nicolás Maduro em janeiro e o controle que os EUA obtiveram de parte das vastas reservas de petróleo do país, porque "ao vencedor cabe o espólio".

"Nossas ações na Venezuela são uma prova de que os EUA não permitirão mais que ameaças contra a América se estabeleçam em nenhum lugar do hemistério ocidental", advertiu.

"E, se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para proteger os interesses nacionais vitais dos EUA."

Após o discurso, Trump ouviu elogios de presidentes latino-americanos.

"Permita-me parabenizá-lo, porque acho que o senhor bateu um recorde mundial: não acredito que tenha havido um presidente americano que tenha se reunido tantas vezes com presidentes do hemisfério ocidental", disse o presidente paraguaio, Santiago Peña, a Trump em uma reunião do Escudo das Américas, horas mais tarde, em Nova York.

A afinidade dos governantes latino-americanos com o presidente dos EUA se manifesta sobretudo em temas de segurança, mas há indícios de que ela esteja se ampliando para outras areas.

'Sendo duro'

O Escudo das Américas surgiu em março como uma coalizão de Washington com governos da região politicamente próximos para combater o crime organizado — embora o próprio Trump tenha dito na terça-feira, diante dos integrantes do grupo, que eles "talvez não saibam" o quanto essa aliança que ele lidera é importante.

O Chile, governado desde março pelo político de direita José Antonio Kast, aderiu naquele dia à aliança de 15 países, que declararam sua disposição de impor "sanções e outras medidas" contra grupos que Trump classificou como narcoterroristas na América Latina, entre eles o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Além dos EUA e do

Chile, a declaração foi aprovada pelos governos da Argentina, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

"O crime organizado não respeita fronteiras,

por isso estamos muito felizes em fazer parte desta coalizão.

Aplaudimos sua liderança e sua iniciativa, presidente Trump", disse durante o encontro Keiko Fujimori, que assumiu a presidência do Peru em julho e também aderiu recentemente ao grupo.

"A única maneira de combater o crime é sendo duro", respondeu Trump.

"Vocês têm que ser muito duros. Talvez nem gostem disso, mas precisam ser: isso vai detê-lo rapidamente."

O presidente dos EUA ordenou que suas próprias forças militares realizassem bombardeios que, desde o ano passado, mataram mais de 220 pessoas em embarcações que supostamente transportavam drogas em águas do Caribe e do Pacífico, sem apresentar provas claras disso.

Um relator especial da ONU para direitos humanos afirmou em um relatório na segunda-feira (21/9) que esses ataques dos EUA "violam o direito internacional" e "plausivelmente constituem crimes contra a humanidade".

O autor do relatório, Ben Saul, também afirmou que o Escudo das Américas "prioriza uma resposta altamente centrada na segurança, sem compromissos explícitos com os direitos humanos e o direito internacional, nem com o enfrentamento das causas profundas do crime organizado, como a corrupção e a fragilidade do Estado".

São críticas também levantadas por outros especialistas, mas que foram deixadas de lado durante o encontro entre os EUA e seus aliados latino-americanos na terça-feira.

Em vez disso, Trump falou sobre as organizações de narcotráfico e sugeriu aos presidentes que fazem parte do grupo: "Nos digam quais são e nós as eliminaremos. Ou eliminem vocês mesmos; gosto ainda mais disso. Mas, se não conseguirem, faremos isso por vocês" Nesse momento, os presentes na sala riram.

Quando Washington classificou as duas

organizações como terroristas, em maio, o governo Lula recebeu a medida com desconfiança, por entender que ela poderia abrir caminho para intervenções militares dos EUA em território brasileiro.

'Uma só voz':

Embora o Escudo das Américas tenha como foco questões de segurança, Trump também mencionou, diante dos integrantes do grupo, a

"enorme riqueza natural" dos países e pediu que evitem "que potências externas hostis se apoderem dela".

"Os recursos das Américas devem sempre pertencer aos povos das Américas. Os EUA estão dispostos a colaborar com vocês para alcançar esse objetivo", afirmou.

Via: bbc