Os motoristas em Goiânia não respeitam ninguém!

Entre a falta de uso da seta, disputas por espaço e desrespeito às regras, o autor reflete sobre como a imprudência transformou o trânsito de Goiânia em um exercício diário de paciência. Andar por Goiânia é um verdadeiro desafio. Os motoristas dirigem como se nunca tivessem aberto o Código de Trânsito Brasileiro. E olha que existe um velho conto popular, cercado de teorias e conspirações, segundo o qual a capital goiana é uma das cidades mais difíceis do país para se passar na prova prática de habilitação. O curioso é que essa fama ultrapassa os limites da capital. Moradores de cidades vizinhas também repetem a história. Então, alguma verdade deve haver nisso. Eu passei na prova prática de primeira, mas conheço muita gente que só conseguiu a carteira na terceira, quarta ou até na sétima tentativa. Ainda assim, basta dirigir alguns minutos para perceber que algo deu muito errado no caminho. A imprudência e a falta de respeito parecem fazer parte da paisagem urbana. Há inúmeras situações capazes de provocar um nó no estômago, mas existe uma, em especial, que merecia ser estudada pela antropologia social. É um comportamento tão irracional que só consigo explicá-lo por uma mistura de egoísmo, baixa educação no trânsito e uma estranha cultura coletiva de competição. Imagine a cena. Você está na faixa da esquerda e, naturalmente, em algum momento precisará entrar à direita para acessar outra rua. O procedimento correto seria simples: ligar a seta e aguardar uma brecha. Em Goiânia, porém, dar seta parece ser um convite para uma disputa. O motorista que vem atrás acelera imediatamente. Ele faz questão de impedir que você ocupe o espaço à frente. E o mais curioso é que o motorista que vem logo atrás dele também não quer deixá-lo entrar. É como se todos, simultaneamente, assinassem um pacto silencioso: "Aqui ninguém muda de faixa." Tenho a impressão de que eles só permitiriam sua entrada quando você já estivesse chegando a Senador Canedo, Aparecida de Goiânia ou Guapó, dependendo do sentido em que trafega. Evidentemente, é um exagero. Ou talvez nem tanto. Nesse cenário, a seta deixa de ser um instrumento de comunicação e passa a ser um aviso para que acelerem ainda mais. O verdadeiro pedido de passagem acaba sendo a buzina, usada de maneira quase desesperada. Caso contrário, você segue reto indefinidamente. As vezes me pergunto se esse comportamento explica por que tanta gente simplesmente não usa a seta. Muitos preferem frear bruscamente na sua frente para entrar em uma rua sem qualquer sinalização prévia. E, como se isso já não bastasse, fazem a conversão na velocidade de uma tartaruga contemplando a existência. Tudo isso em plena era do Waze, do Google Maps e de tantos outros aplicativos que praticamente eliminam o argumento de estar perdido. Uma coisa é reduzir a velocidade por segurança; outra completamente diferente é transformar uma curva simples em uma eternidade. As "barbeiragens" do dia a dia são incontáveis. Há quem faça ultrapassagens irresponsáveis, quem estacione em esquinas, quem saia de garagens sem sequer olhar o fluxo da via e quem insista em trafegar a 30 km/h na faixa da esquerda, destinada justamente ao fluxo mais rápido. No fim das contas, dirigir em Goiânia parece menos uma atividade cotidiana e mais um exercício permanente de paciência. Talvez um dia compreendamos que a rua não pertence a um motorista, a um carro ou ao ego de quem está ao volante. A via é pública. E viver em sociedade exige algo muito simples, mas que parece cada vez mais raro: respeito pelo outro. Fonte: jornalopção

UTILIDADE PÚBLICA

Val Bernardo - W1 Goiás

7/13/20261 min read

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